sábado, 12 de novembro de 2016

Cidades

                 «Ah! Se pudesse enfeixar as vossas casas na minha mão
            e, como um semeador, espalhá-las nas florestas e campinas !
    Fossem os vales as vossas ruas e os atalhos verdejantes as vossas veredas,
        para que pudésseis procurar-vos uns aos outros através dos vinhedos
                e voltar com a fragrância da terra nas vossas roupas.»

                                Kahlil Gibram, The Prophet

                   



    O que é uma cidade? Parece uma pergunta para fazer a uma criança, e no entanto quanta complexidade numa definição curta para uma realidade tão extensa. Mas, se devo dar uma primeira resposta, diria então que a cidade é um lugar habitado por homens que apresenta uma disposição expressiva da forma como esses homens quiseram e querem viver. As construções, o traçado de uma cidade com as suas ruas e avenidas, parques e igrejas, fábricas e habitações são uma história do tempo que em vez de estar escrita com palavras adopta a forma sólida e duradoura da pedra, do cimento e do alcatrão.



    A cidade foi desde a Antiguidade o centro do poder político e militar com as cidades fortificadas, do poder económico com a importância dos mercados que tinham lugar na Ágora, do poder religioso que os variados monumentos religiosos atestam e do poder cultural,  com os anfiteatros e os primeiros Jogos Olímpicos. Nessa altura a cidade era um ponto de reunião, os cidadãos que ali residiam eram em número reduzido e os outros iam e vinham conforme o mercado, a reunião política, as cerimónias religiosas ou as festas pagãs iam tendo lugar. E assim foi durante muito tempo, embora gradualmente as cidades fossem aumentando de dimensão e população conforme a sua importância económica. A descrição de Paris do século XIV  durante a peste negra dá-nos conta de uma cidade sem condições para a população que albergava, onde a falta de estruturas sanitárias fez com que o contágio fosse impossível de estancar, apesar da grande fuga que então se deu para os campos.
    Paris, o centro da Revolução Francesa cujos ideais se foram propagando como uma onda  sobretudo por toda a Europa, continuava a apresentar depois dela, obstáculos urbanísticos para que os seus ideais pudessem concretizar-se. São sempre as ideias que promovem a mudança, pois o ser humano não faz nada sem primeiro pensar porquê e para quê sendo por isso que elas se espelham nas suas realizações. Em meados do século XIX, com a intensificação da revolução industrial e com o crescimento populacional, Paris estava antiquada, não permitia que as novas facilidades trazidas pelo progresso fossem implantadas e o Imperador  encomendou ao Barão Haussmann a reforma da cidade, com ruas mais seguras, melhores habitações, hospitais, mais condições sanitárias, zonas de comércio. Haussmann, nem arquitecto nem engenheiro, fez um plano de reforma com doze grandes avenidas, que para serem implantadas, obrigoram a demolir muitas das construções então existentes, ruas estreitas e alguns monumentos. A sua rápida e decidida reforma polémica despertou o Ocidente para o problema do urbanismo. Vários modelos de desenvolvimento urbano surgiram, procurando soluções ideais para os enormes problemas criados pelo rápido aumento de densidade populacional das cidades da europeias, exprimindo pelo menos três grandes de pensamento: Humanista e anti-industrialismo, com uma cidade nova de crescimento limitado ao lado da antiga, a cidade-jardim de HOWARD em QUE PROCURA REUNIR AS VANTAGENS DA CIDADE E DO CAMPO; Naturalista anti-industrialista, protagonizada por Wright que dirigindo-se ao cliente da casa da cascata lhe disse “Quero que viva com a sua cascata. Não quero que a veja, mas que faça parte integrante da sua vida.”; com a noção de espaço orgânico, pequenas moradias dispersas, pequenas fábricas, quintas, escolas, sempre com acesso ao mundo natural; Progressista, obcecada pela modernidade com imóveis colectivos gigantes, largas avenidas, representada por Tony Garnier com o seu fantástico plano da cidade industrial onde cada habitação deveria ter uma janela virada para o sul para deixar entrar os raios de  sol  e todas as divisões deveriam ser ventiladas pelo exterior, por Fourrier e o seu Falanstério para 1.500 pessoas de diversas idades, profissões e níveis culturais,por Le Corbusier com a  proposta do plano Voisin para Paris, ou ainda por Walter Gropius e a racionalidade da Bauhaus.  

    O conceito de  Modernidade Líquida de Zygmund Bauman significa que no começo deste século, tudo é volátil, tudo é invadido pela velocidade, tudo perde consistência e estabilidade.  As pessoas são dominadas pelo provisório, responsabilizadas pelos seus fracassos individuais, vivem na  insegurança do seu futuro, também elas têm que mudar permanentemente para acompanhar o ritmo dos tempos e talvez a sua impressão digital seja a sua única marca realmente fixa. As Instituições nem chegam a envelhecer porque a alternativa é ou mudar ou desaparecer e as pessoas e as instituições são os elementos vivos de uma cidade, onde o resto serão edifícios e estruturas destinadas às diversas actividades humanas. Que acontece então à cidade nestes tempos de mudança das pessoas e das Instituições, como a poderemos definir ?  Eu não a conseguiria definir melhor do que estas magnificas linhas que se seguem:
    «A imagem da cidade é composta de um sem número de traços, linhas, cores, sinais gráficos, sons, sotaques, letras, roupas, números, cheiros, frases, massas, volumes, movimentos etc. É aqui o lugar onde convivem as relações capitalistas impessoais com o nepotismo, os direitos legais com as "panelinhas", a religião com a ciência, a família com o individualismo crescente, o isolamento individual com a comunicação internacional e, em termos de espaço físico, centros super-construídos com periferias vazias, arranha-céus com favelas, palacetes e cortiços, avenidas com pracinhas; a arquitectura tradicional e de estilo convive lado a lado com a ultra-moderna mas, principalmente, a cidade é o lugar onde convivem pobres e ricos, velhos com jovens, mendigos e doutores, católicos e protestantes, o empresário e o funcionário, o operário e o ladrão, o malandro e o otário...Na cidade, a cultura até mesmo cria a natureza. Parques florestais, praças, bosques, jardins, por exemplo, estão presentes apenas onde o homem deseja ou permite. Tudo isto dificulta uma definição do que seja a cidade, que pode ser, ao mesmo tempo, tudo e nada.»
   E quem é e como é o homem urbano?
   Simmel pensava o homem urbano como um ser massacrado por um turbilhão de estímulos quotidianos aos quais depois de certo tempo deixa de reagir, sofrendo uma espécie de "anestesia" que faz com que ele não se espante com nada; atitude distanciada - uma espécie de embrutecimento gerado pelo excesso de estímulos nervosos - que ele chama "blasé" . Mas a descrição não fica sequer a meio do caminho se não me referir ao aspecto multifacetado, aos diversos papéis sociais que o indivíduo urbano tem que desempenhar, e que o obrigam a ser ao mesmo tempo, «funcionário, eleitor, paciente, transeunte, passageiro, espectador, pai, marido, freguês, fiel, cliente, munícipe, aluno etc.»3 Como pode este individuo urbano, desempenhando tantos papéis neste tempo de velocidade e mudança, fazer um projecto de vida coerente e tentar mantê-lo, sem ser um suicida?  Fazem falta novos projectos utópicos e não individualistas, mas para isso o homem tem que primeiro acreditar que é capaz de voltar a mudar o mundo em vez de o deixar rolar tentando correr na frente para não ser esmagado.
    O homem é um ser que pertence à Natureza embora tenha tendência para se julgar superior a ela porque, a fim de facilitar as suas condições de vida nessa Natureza e como seu habitante, especializou-se no cérebro, 4 e foi construindo uma série infinita de ferramentas e dispositivos que lhe permitissem dominá-la e fizessem dele um indivíduo superior, talvez apenas para que lhe fosse possível viver com menos angústia ou menos medo de perder a sua vida e que Hobbes dizia ser característica do seu estado natural. Nessa construção de uma nova natureza artificial o homem afastou-se do seu habitat natural, afastou-se do Jardim do Éden e veio viver para o Mundo onde tem que comer o pão cultivado com o suor do seu rosto. É sobre esta ideia, que é criada a visão da cidade como o local do perigo (como se nunca tivesse existido necessidade de cidades fortificadas), a cidade lida como solidão, como sítio onde ninguém se conhece, onde se desfruta de uma grande liberdade social mantida pelo secretismo da vida de cada um, favorecedor da inovação e autonomia mas simultaneamente do isolamento. É a cidade vista como contraposição ao campo, à aldeia ou ao povoado. Mas, o habitante da cidade na sua maioria  veio do campo ou da aldeia com o sonho de melhores oportunidades de trabalho e de vida, e ele mesmo age como transmissor da velocidade e da mudança que vive na cidade, à qual se habitua e que apesar de alguns inconvenientes, considera uma forma mais avançada de viver pelo que, como pode, ajuda a levar algumas das suas características até ao seu lugar de origem. A diferença entre o europeu urbano e o rural no Séc. XXI não tem a nitidez do contraste existente entre o “parolo” e o “blasé”.
    Este brevíssimo apanhado sobre as cidades e as características dos seus moradores é suficiente para dar conta da preocupação que este tema do urbanismo e consequentemente do “habitar” como conceito vasto de morar ou demorar-se, de permanecer, como Heidegger tão completamente o descreveu, tem ocupado o pensamento de tantos homens. Heidegger dizia que ambos os conceitos construir e habitar precisam ser pensados porque pertencem um ao outro,  mas aquilo que foi pensado há um século talvez tenha possibilidade de vir a ser realizado proximamente, talvez agora que as grandes indústrias parecem desertar das cidades europeias.
    De novo vai ser necessário pensar o habitar humano, de preferência de uma forma global porque o planeta não tem recursos para que continuemos a insistir em mais produção e maior produtividade. Precisamos habitar o mundo de uma forma menos consumista, que se reflectirá inevitavelmente nas casas onde sonhamos querer  habitar, mesmo que nunca passem de um sonho, mesmo que nunca as cheguemos a construir, como o caso de que fala Gaston Bachelard na Poética do Espaço 6. Porque «...a casa sonhada deve ter tudo. Por mais amplo que seja o seu espaço, ela deve ser uma choupana, um corpo de pomba, um ninho, uma crisálida. A intimidade tem necessidade do âmago de um ninho.» Este homem que vive hoje esta modernidade da mudança precisa mesmo de uma oliveira firme onde se possa  agarrar,  de um canto seu, onde se possa recolher com a segurança que os pássaros de arribação têm quando voltam aos seus ninhos que mais não duram do que a sua breve estadia. O sistema económico de hoje, ou a sua falência, está a transformar os homens em pássaros migrantes, em aves de arribação, que vão andando de terra em terra não à procura do melhor clima, mas de condições de subsistência. Mas os pássaros não têm a ideia de passado, nem de futuro, vivem simplesmente e os homens não gostam de viver assim, sentem-se inseguros.


    Foram breves os instantes da humanidade em existiram  crenças justificadas de que a vida ia ser melhor no futuro.. Como diz Bachelard « O pássaro construiria o seu ninho se não tivesse o seu instinto de confiança no mundo?....a casa onírica como o ninho não conhecem a hostilidade do  mundo»
Precisamos sonhar o ninho do homem, precisamos pensar o habitar e precisamos de acreditar que o conseguimos realizar, porque «...O mundo é um ninho, um imenso poder guarda os seres do mundo nesse ninho.»

   
BIBLIOGRAFIA


AMARAL, Rita  http://www.aguaforte.com/antropologia/cidade.html [consultado em 20 de Janeiro de 2010 ]

BACHELARD, Gaston, A Poética do Espaço, São Paulo, Martins Fontes, 200

HEIDEGGER, Martin, Ensaios e Conferências, Petropolis, Vozes, 2002

SCHELER, Max, A Situação do Homem no Cosmos, Lisboa, Tex&Grafia, 2008



quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Siauliai - Arte ? Religião ? Desespero ?


 Siauliai,na Lituânia, lugar sagrado, estranho.


Quando lá fui estava a ler "Levantar o Céu, Os Labirintos da Filosofia", de José Mattoso. À medida que mais me aproximava do local, lembrava-me, de uma forma irreprimível, do capítulo sobre a nuvem do não saber que nos separa de Deus.

As religiões andam sempre de mão dada com a arte. A arte como a melhor forma de expressar o inexprimível. Mas em Siauliai a arte é caótica, é a nuvem escura de uma trovoada, como a nuvem preta do não saber que sempre nos afasta de Deus.