sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Com sorte todos vamos ser idosos. Queremos ser descartáveis?

Como chegámos aqui?
Primeiro foi o acabar com as manifestações de amor: o cumprimento, o beijo, o abraço, sim o abraço,  que bom que é um abraço e que raro e estranho ele é. Mesmo coisa de gente doutra época, de retardados.
Depois foi o acabar com os sentimentos: não sofras porque não estão juntos, deixa cada um fazer a sua vida, nunca, nunca se intrometer. As visitas escasseiam, o trabalho é muito, o tempo não chega, as pessoas separam-se e ...é natural que este idoso do filme não reconheça (ou não queira reconhecer) o filho. Para ele o filho não pode ser este estranho que vai ali uma ou duas vezes por ano, com os minutos contados, ansioso por se ir embora. Claro que não, este não é filho, nem o idoso é sequer o seu próximo.
A seguir reprimimos as lágrimas pela morte dos nossos pais, filhos, entes queridos. Chorar é não saber comportar-se. Mas das carpideiras aos funerais rápidos das agências funerárias chegámos em meio século. Agora a produtividade também chegou às agências funerárias. Afinal um morto é um morto, para que serve?

E pensar que há tanta gente que adora o seu animal de casa e que o trata do mesmo modo que deveria tratar os seus filhos ou idosos.


      https://www.youtube.com/watch?v=S09zpRXm1U8

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

A nuvem negra

Que os filósofos se  atrevam a penetrar a nuvem do tempo, pois bem precisamos de encontrar caminhos.

“La tarea de la filosofía no consiste en contemplar lo eterno, ni en reflejar la historia, sino en diagnosticar nuestros devenires actuales: un devenir- revolucionario, un devenir-democrático, un devenir-griego”(¿Qué es la filosofía? Gilles Deleuze).

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

O Tempo de Viviane Mosé

Hoje encontrei uma filósofa e uma poetisa. Gostei das duas. Aqui fica uma  poesia de Viviane Mosé


TEMPO
quem tem olhos pra ver o tempo soprando sulcos na pele?
soprando sulcos na pele,  soprando sulcos?

o tempo andou riscando meu rosto
com uma navalha fina 
sem raiva nem rancor
o tempo riscou meu rosto com calma

(eu parei de lutar contra o tempo 
ando exercendo instantes
acho que ganhei presença)

acho que a vida anda passando a mão em mim.
a vida anda passando a mão em mim.
acho que a vida anda passando.
a vida anda passando.
acho que a vida anda.
a vida anda em mim.
acho que há vida em mim.
a vida em mim anda passando.
acho que a vida anda passando a mão em mim


e por falar em sexo quem anda me comendo é o tempo na verdade faz tempo mas eu escondia porque ele me pegava à força e por trás 

um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo
se você tem que me comer  
que seja com o meu consentimento 
e me olhando nos olhos…

acho que ganhei o tempo
de lá pra cá ele tem sido bom comigo 
dizem que ando até remoçando.

Em São Paulo, 1 de Maio de 2009

segunda-feira, 8 de abril de 2013

sexta-feira, 8 de março de 2013

Dia Internacional da Mulher



A 8 de Março de 1857,  as operárias de uma fábrica de tecidos de Nova Iorque, fizeram uma grande greve. Ocuparam a fábrica. Reivindicaram melhores condições de trabalho:  a redução do horário de trabalho para dez horas, em vez das 16 horas diárias; equiparação dos seus  salários aos dos homens, pois as mulheres chegavam a receber um terço do salário dos homens;  dignidade de tratamento na fábrica. (O recente filme "Os Miseráveis" dá uma boa visão do que eram as fábricas então e do que era exigido às operárias para manterem os seus postos de trabalho).
A manifestação foi reprimida com violência. As mulheres trancadas dentro da fábrica e esta incendiada. Morreram 130 tecelãs carbonizadas, vítimas da mais um ato totalmente desumano.
Em 1910, durante uma conferência na Dinamarca, foi decidido que o 8 de Março passaria a ser o "Dia Internacional da Mulher", em homenagem as mulheres mortas naquela fábrica em 1857.

O género humano não é flor que se cheire e está muito longe de ser bom. Durante anos temos vindo esforçadamente a construir aquilo que designamos por Humanidade, mas de repente, se não estamos atentos, escorregamos como acontece com o caracol a subir esforçadamente a uma parede e é preciso recomeçar, quase do fundo. Por isso é tão salutar recordar estas efemérides, porque passaram apenas 156 anos, porque os sinais do mundo apontam para uma ameaça de regressão.

Durante muitos anos interroguei-me o que queriam as pessoas dizer quando desejavam ou rezavam pela sua "SALVAÇÃO". Mas salvação de quê?
Só há muito pouco tempo descobri que a salvação que procuramos é a distanciação, o escapar, à terrível e temível natureza da nossa condição humana.

Estas 130 mulheres morreram, como tantas e tantos outros, às mãos de outros homens seus iguais. De quantos mártires precisaremos mais até alcançarmos a Salvação?